Não usaria o fato de ser uma mosca para ouvir/ver de camarote conversa de ninguém, pois seriam apenas zumbidos. Sendo humana, já acho que é zumbido. Ou você acha que tem algo de importante a dizer? Já notou que grande parte do que você jurava constituir sua individualidade foi por água a baixo? Nisso o Orkut foi útil. Através das comunidades, você descobriu que milhares de pessoas além de você também treinam pra receber o Oscar (debaixo do chuveiro e com o xampu na mão). Outras milhares de pessoas falam sozinhas e algumas centenas compartilham do seu suposto requintado gosto musical. Sua individualidade é compartilhada. Você não é diferente, pelo menos não como você gostaria.
Sendo assim, melhor ser uma mosca. Não somos ninguém, não vamos além de uma assinatura e uma 3x4. E ainda vomitam dentro de nossos ouvidos falácias poéticas que nos cegam, como a de que somos especiais. Vivemos como moscas, somos mais sujos que elas, mas nos iludimos e nos iludem todos os dias, alimentamos nossa pretensão. Massageamos nosso ego com mentiras, acreditamos ser superiores em relação a todos os outros seres vivos... Mas, quando colocamos a cabeça no travesseiro, nossa insignificância e nosso vazio começam a percorrer por todo nosso íntimo. Choramos, sofremos, perdemos a capacidade primordial de dormir. Moscas dormem bem.
A questão da mosca para mim é como a de mudança de sexo para quem sente que nasceu no corpo errado: só quero que meu físico represente o que sou por dentro. De tal forma que minha vida seria mais funcional e menos pesarosa. Moscas não se decepcionam, moscas pousam somentes sobre merdas concretas e moscas são mais relevantes estragando uma sopa que qualquer nobel recebido por solucionarmos problemas que nós mesmos criamos.