sábado, 3 de setembro de 2011

Uma reflexão sobre nossa vida de mosca

Queria ser um inseto. Uma despretensiosa mosca, voando sobre sujeiras tão menos nojentas que as conversas das pessoas que eu, bípede imbecil, já dialoguei. Sendo uma mosca, eu não sofreria com o dramático fato de que meu polegar opositor não serve para agarrar caminhos certos ou verdades soltas em olhares. Muito menos com a inabilidade dos meus dois membros inferiores de andar sobre a linha tênue que existe entre a bipolaridade de meus sentimentos.
Não usaria o fato de ser uma mosca para ouvir/ver de camarote conversa de ninguém, pois seriam apenas zumbidos. Sendo humana, já acho que é zumbido. Ou você acha que tem algo de importante a dizer? Já notou que grande parte do que você jurava constituir sua individualidade foi por água a baixo? Nisso o Orkut foi útil. Através das comunidades, você descobriu que milhares de pessoas além de você também treinam pra receber o Oscar (debaixo do chuveiro e com o xampu na mão). Outras milhares de pessoas falam sozinhas e algumas centenas compartilham do seu suposto requintado gosto musical. Sua individualidade é compartilhada. Você não é diferente, pelo menos não como você gostaria.
Sendo assim, melhor ser uma mosca. Não somos ninguém, não vamos além de uma assinatura e uma 3x4. E ainda vomitam dentro de nossos ouvidos falácias poéticas que nos cegam, como a de que somos especiais. Vivemos como moscas, somos mais sujos que elas, mas nos iludimos e nos iludem todos os dias, alimentamos nossa pretensão. Massageamos nosso ego com mentiras, acreditamos ser superiores em relação a todos os outros seres vivos... Mas, quando colocamos a cabeça no travesseiro, nossa insignificância e nosso vazio começam a percorrer por todo nosso íntimo. Choramos, sofremos, perdemos a capacidade primordial de dormir. Moscas dormem bem.
A questão da mosca para mim é como a de mudança de sexo para quem sente que nasceu no corpo errado: só quero que meu físico represente o que sou por dentro. De tal forma que minha vida seria mais funcional e menos pesarosa. Moscas não se decepcionam, moscas pousam somentes sobre merdas concretas e moscas são mais relevantes estragando uma sopa que qualquer nobel recebido por solucionarmos problemas que nós mesmos criamos.

sábado, 20 de agosto de 2011

Aos fumantes de almas

Estou de partida. Levo comigo minha insignificância, a falsidade que eu julgava necessária para sobreviver e a frigidez que me obrigaram a aderir, só pra não falarem sem motivo. Levo você em minha memória, que se fosse uma mala, eu deixaria no aeroporto. E falo sem culpa, pois já cansei de sofrer. Cansei de castigar minha alma suja, ela é o que tenho de mais puro. Mas bem, não vou gastar mais um texto falando só de você, isso nunca me trouxe sequer um “eu sei que a dor existe”.

Eu me sinto como um cigarro que fumam sem tragar. Tão dispensável, tão puramente estético, tão ornamental e nada mais que isso: um enfeite depreciativo para construir uma falsa imagem de quem se autodestrói. É como se a pessoa que estivesse comigo dissesse: vejam, estou me destruindo, reconheçam minha coragem e minha ousadia. Mas nem me tragam. Me queimam, me puxam, me sugam, me transformam em cinza, me deixam pairar em suas bocas e depois soltam toda a fumaça. Fazem de tudo, mas não me tragam, eu sirvo só para o estrago de mentirinha. Não me deixaram estragar os pulmões, a garganta e tirar o fôlego de verdade.

Pois agora, senhoras e senhores, o acessório para seu falso mártir está de partida. Não, eu não acho que fará diferença, mas o gosto de libertação que meu escasso amor próprio experimenta ao dizer isso faz valer o feito. Estou lavando minhas mãos, me livro agora de todos vocês, sanguessugas. Não posso dizer o mesmo das feridas que deixaram. Expostas e contaminadas. Mas não serão minhas necroses um empecilho para que eu ria com imensa satisfação ao ver-lhes afundar na própria mentira, no dia em que passarem a acreditar na dor que inventaram para conseguir pena. Minha dor e a desgraça que me persegue não sumirão. Tudo será, independente do que eu fizer daqui pra frente, “mérdico” como sempre foi. PORÉM, já possuo a coragem pra sacrificar o que amo e ignorar a dor de quem me culpa. Que apodreçam.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Dor por barro

Como eu poderia imaginar que doeria tanto? Como minha mente ousaria me dizer que não vale o risco de sonhar acordada, se era isso que me movia? Como eu esperaria me perder se, na minha cabeça, o caminho estava certo? Como eu esperaria a solidão se, no meu coração, estava você. No meu coração estava você. No meu coração acelerado, nas minhas entranhas bagunçadas, nos meus olhos distantes, nas minhas palavras soltas, nas minhas unhas cravadas na sua pele, nos meus alvéolos cheios do ar que você expirou. Na minha existência. Na minha inexistência. Como eu poderia imaginar que cada aspecto da minha vida estaria desmoronando como está agora?

Falam demais sobre a receita da felicidade, numa espécie na qual ser feliz é um privilégio dos desavisados. Receitas de como ser feliz, receitas de como superar términos, receitas de como trepar direito, receitas de como ser alguém. Receitas furadas. Receitas impraticáveis. Tudo que dá certo é impraticável, insustentável. O certo é momentâneo, é pó. Concreto é o choro, a lágrima, o murro na parede, os arranhões na pele. O resto é conversa, o resto não se pega, não se fotografa, não se usa como garantia. Por isso, não compre promessas, não as pegue como garantia, elas não cabem no seu bolso, não se prendem em cofres, não duram mais do que o momento em que foram ditas.

Sempre que ouço perguntarem a alguém “Você é feliz?”, eu me pergunto se as pessoas entendem o quanto essa pergunta não faz sentido. “Você É feliz?”. Como se felicidade fosse uma característica como a cor do cabelo ou temperamento. Felicidade também é pó. Tudo no que te fazem acreditar que é bom, ou tudo que é de fato bom, é pó. E seria melhor se eu tivesse descoberto isso antes de acreditar na solidez do que mais tarde se desmancharia. E não me refiro a algo isolado. Tudo de bom desmanchou. Só espero ser uma das pessoas que se acostuma a viver com a sombra do que deveria ser e não foi.

Não quero surtar, não quero ser daquelas loucas trancadas no apartamento com mil gatos e olhares blasés lançados contra a parede durante um sábado a noite. Eu sei, eu sei, a família do comercial de Qualy nunca vai ser minha, o casal da propaganda de sonho de valsa nunca vai me ter como componente e muito menos eu vou estar estampada como exemplo de alguma coisa em algum lugar. Eu estou pedindo pouco. Só não quero perder a cabeça. Quero só aceitar que é barro tudo o que jurei pra mim mesma que seria monumento.

sábado, 9 de julho de 2011

Bastidores

Eu quero que você me engane mais um pouco, quero mais palavras bonitas, mais algum tempo sob o efeito de suas piedosas injeções de morfina. Quero que me conte seu dia e que finja querer saber sobre o meu, mesmo que não preste atenção na resposta. Cumpra o protocolo, não deixe que seja tão evidente a distância entre nós. Vou tragar suas promessas fáceis como um retardado traga seu baseado, me embebedarei com suas risadas e fingirei não sentir a ressaca de seu teatro. Pouco me importa quando as cortinas se fecharem, eu quero o espetáculo. Os bastidores sempre são doentes.

terça-feira, 5 de julho de 2011

Carta ao réu

Um dia, quando você acordar, talvez eu não esteja mais aqui, e vai ser normal, até você notar que é definitivo. Você vai se perguntar: Faltou amor? Faltou dialogo? Faltou tentar? Faltou coragem? Faltou simplesmente falar que nada faltaria? A única coisa que eu vou querer saber, talvez, é se sua consciência vai estar leve depois de você conseguir as respostas.
Apesar de saber que fui, sou e sempre vou ser um borrão preto na sua consciência, um tópico que vai sempre levantar a famosa pergunta “onde é que eu estava com a cabeça?”, enfim, apesar disso, eu ainda sinto que poderia ter sido mais que apenas um momento, mais que uma brecha, um descuido, mais que alguns segundos de um erro seu, um erro muito acertado pra mim.
Mas pra que cobranças agora? Pra que achar que poderia ter sido se já não foi? Não foi e ponto, mas eu não preciso aceitar. Assim como você tem o direito de não querer por seu cotidiano confortavelmente normal em jogo, de não arriscar, eu tenho o direito de achar que isso é burrice, é comodismo, com uma pitada generosa de egoísmo e covardia. Mas quem liga? Você eu sei que não.
Como eu estava dizendo, um dia eu vou e não volto mais e, francamente, sinceramente, do fundo do meu coração fudido, eu não espero que você se importe, ou que perca uma noite de sono por causa disso, mas o meu conselho pra você, se você acha que outra pessoa vai se prestar ao papel ao qual eu me prestei, é o seguinte: SENTE-SE! E, uma observação: um borrão na consciência é suportável, saber que perdeu a pessoa que mais se “idiotizou” por você e que mais tentou te fazer abrir os olhos quanto a isso, talvez seja um pouco mais difícil de suportar.
De qualquer forma, um dia ou outro, nós nos topamos por aí, fingimos que estamos bem, que nossos sorrisos não são uma puta falsidade, que nossa vida tem algum sentido, eu finjo que acredito que você sentiu saudade, você finge que acha que o que eu sentia era mera empatia e, claro, nos separamos de novo, porque, afinal, foi assim que NÓS decidimos, certo? Não, não está certo, ninguém me perguntou o que eu queria, mas que diferença iria fazer se perguntasse? Eu queria você, e talvez eu soubesse que nunca teria, você queria esquecer o erro, e como é o mais cômodo a se fazer, sigamos sua vontade.
Sem mais delongas, afinal, não quero esgotar sua paciência, lhe desejo sorte. Não perca seu tempo se preocupando em ter me feito chorar tanto quanto eu chorei, perder noites de sono como eu perdi, não se culpe, porque se eu chorei, se eu perdi o sono, se eu recusei pessoas irrecusáveis por você, se eu passei horas olhando pra uma foto sua sem mover um músculo do meu corpo, se eu esperei algum sinal, um simples sinal, foi por amor, foi por uma esperança tosca que não quis sair de mim, não foi por você, você nunca me pediu nada (quem dera se tivesse pedido), você nunca quis nada de mim, pra que culpa agora?
Eu não quero pena, não quero falsa preocupação, nem falso arrependimento, não quero suas migalhas, obrigada. Eu faria tudo por você, infelizmente não foi o suficiente. No mais, que se foda tudo, eu sei fingir que estou indo em frente.

sábado, 25 de junho de 2011

Eutanásia

Hoje, quando o relógio apontava alguma coisa pra lá das três da manhã, minha insônia estava me asfixiando, meus pensamentos, ao contrário do meu corpo semimorto, estavam rodando agitados. Apesar disso, os pensamentos eram mórbidos. O que me lembro melhor foi de algumas perguntas que me fiz: há quando tempo não tenho uma crise de risos? Há quanto tempo eu não dou um sorriso não-amarelo? Há quanto tempo eu não telefono pras pessoas que me deixam nostálgica? Há quanto tempo eu deixei de ser eu?

Agora, onze da noite, na sacada e com um cigarro quase terminado em mãos, acrescento uma auto-pergunta: há quanto tempo as pessoas estão tão decaídas e vazias? Foi algo que colocaram na cerveja? Até o “lúcifer” que deveria habitar cada um e apimentar as falas nas conversas baratas não existe mais. Agora tudo que se vê são barbies e kens desfilando suas belezas plásticas, e não digo de rostinhos bonitos (cada vez mais estragados por maquiagens toscas e acessórios mais toscos ainda), digo de rostinhos forçados, a desgraçada espontaneidade forçada é o que há de mais detectável e ridículo, e é o que reina em todas as mesas de bares, filas, rodinhas, colégios, faculdades e qualquer lugar no qual é fotografável.

Não pretendo com essa crítica colocar-me em um patamar superior, até porque minha idéia de mim mesma é pior do que a que tenho de todos os outros. Na verdade, não chega a ser uma crítica, é uma observação, sem pretensão, mas pesarosa. Meu ponto não é tecer acusações, desisti delas. Tudo que tramo em minha mente atualmente são fugas da realidade e confesso ter me esquecido de preocupar com a merda que tudo virou, ao passo de que, quando me dou conta, estou atolada, lá está a realidade me comendo novamente, estuprando meus princípios e ignorando o meu senso de justiça. Porém não me dói como doía antes, apenas me dói de leve.

O que me dói de verdade é o atraso da minha paz. Quem me dera minha quietude e minha morbidez pudessem ser chamados de paz, são apenas um sinal de doença, ou de acomodação, o que não me importa. Eu quero paz, a minha paz, meu nirvana, meu zen, minha respiração alotrópica, o meu Buda, minha Madre Tereza, meu botão de “desliga” e não mais o “stand by”. Tanto faz o custo, eu pago, contanto que venha antes da próxima queda. Foram-se os amigos, os amores, as expectativas, foi-se a vontade de lutar, que não se vá o meu direito à eutanásia. As fotografias não são mais um alimentar de sonhos, são punhais; as cartas não são mais uma saudade reprimida, são a sensação de finitude; eu não sou mais essencial, sou figurante do meu cenário; e isso não é um texto, é um vomitar de bagunças emocionais (então não se foque em entender, apenas me “perdoe pelo auê” ).